
O tempo está passando, ouço ruídos em minha mente. Não sei se a vida está demais ou de menos para mim. Falta-me significado. Meus momentos têm sido iguais em todas as horas. O relógio marca a mesma hora de ontem. Vago pela sala de madrugada, tentando esquecer as minhas ausências. Cruzo os braços sobre a mesa, pouso a cabeça sobre os braços...Preciso buscar lágrimas para chorar... Preciso erguer os olhos e olhar para a frente, como se fosse o primeiro de muitos dias felizes, ou quem sabe o primeiro da minha absolvição. Mas o meu corpo está decadente; a minha mente está a envelhecer, e as mágoas que se fizeram com o tempo, estão entranhadas em minhas veias. Tão decadente como essa música que vaga e fere os meus ouvidos como um grito de dor.
O tempo nas horas, cada hora no tempo, e as lágrimas não chegam para aliviar ou embalsamar a minha tristeza. A tarde de hoje foi de tristeza. Sacudi meu corpo para sair da monotonia. Andei apressada pela rua, distante, longe em pensamento, como se não fizesse parte deste plano. As luzes se acenderam, e eu nem dei por mim: que estava na rua, que a noite caíra, que o vento entoava uma canção entre as árvores da praça. E eu estava viva. Todos esbarravam em mim, e eu esbarrava nos vultos que se aproximavam do meu caminho. Eu sempre faço isso! Eu sempre esbarro em mim mesma. Quero partir para longe, quem sabe para muito longe, não voltar, partir para sempre. Morrer é a palavra! A morte é tão bela quanto a vida. Eu aprecio a morte - ver-me de frente com os últimos minutos de vida. Envolver-me nos últimos suspiros, rápidos, dilacerantes... E tudo estará findado. Os minutos continuarão sendo os mesmos. Apenas com a diferença que, nesse momento, serão sublimes. Serão só meus!
Somando todas as horas de alegria que tive, não daria um terço se comparadas às horas de tédio. Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todas as inquietações, mas não tive tempo de sorrir para cada momento que vivenciei. Amei e odiei muitas pessoas. Meus instintos são fortes e, muitas vezes, falam por mim. A noite avança e me afoga em silêncio; eu me afogo na noite, em tempestade mental. - Apaga-me noite, deixe o tempo esvair poeticamente entre meus dedos! Esperei tanto por esta hora, abandonei a direção do meu destino, e as incertezas vãs que tem me corroído a alma. Minhas fraquezas se apresentam a cada minuto, inertes, serenas, sem cor. Minha inutilidade para a vida é gritante. Tenho razões para descansar nesta noite tranqüila. O amanhã está desfeito e não virá, por certo. E no vento que me chama para a janela e me mostra o bafejo da lua, sinto o aroma da morte, como flores que exalam do meu jardim florido.
Penso, sobejo, sinto meu passado de todas as maneiras, o que vivi de todos os lados, meus sentimentos de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. O meu momento é difuso, profuso, completo, longínquo. Eu torno-me sempre, mais tarde em mais cedo, sou uma pedra ou uma lâmina, uma flor ou uma idéia abstrata, sou multidão, sou humana, profana, inferior e superior. Esses momentos presentes são absolutamente orgânicos. Talvez eu precisasse agora de um abraço comovido para sentir que estou viva, talvez um beijo amigo ou um sorriso franco a me dizer em imagens que não cometi nenhum crime, que o meu vício pela vida é importante.
Porém, despeço-me, entrego-me, transbordo em emoção. Aceno agora com o lenço de todas as despedidas, sejam de paz, de revolta, de alegria ou de dor. Bato de frente contra o meu corpo pelo vermelho e o negro que transformei em rubro, pelas loucuras que me permiti no cair da tarde, pela minha consciência incerta, minha vida pacata neste subjetivo universo. Passa tudo agora, nesse avançado da hora, todas as coisas num desfile mental e desigual. Todas as pessoas rumorejam-se dentro de mim ... Meu coração rendez-vous de todas as lembranças. Um coração à margem, prólogo, índice, incerto, apenas um bilhete de entrada para o desconhecido.
Preciso agora de uma paz que não tenho, e de um amor que não conheço. É necessário um momento limpo para que eu possa repousar de vez nesta sala vazia, de uma febre imensa que me angustie e me faça espumar nessa imensidão que não cabe no meu lenço. A vida me dói agora e mordo os lábios para não gritar. Estou degenerando os meus sentidos. A alma não tem arquivos, e a minha vida foi apenas uma metáfora com valor declarado, uma metáfora de coisas fúteis, uma paisagem da cidade num ponto distante e imperceptível. De todas as portas que abri, de todas as infelicidades pelas quais passei, as impossibilidades de exprimir meus sentimentos, nada se compara a esta fatídica hora: sim, enfim, eu sou a remetente e a destinatária da minha própria sorte. Sou um diário de palavras gastas... E a vida pesa de repente. Faz frio e a vida me pesa nos ombros neste momento. Não quero mais virar a esquina todos os dias, subordinando-me aos senão da vida.
Por favor, não tome nota de nada que escrevi, nem finja que está com pena de um ser tão sofrido e medíocre. Sou apenas alguém que passa, sem que você perceba; um vulto que está ao seu lado por acaso. Sou alguém num tempo qualquer que já foi. Quero silêncio! Preciso partir para a minha viagem. Não gosto de barulho e não quero que o sino toque. Todas as horas são minhas agora. Passo a ser a dona do tempo.





